Mais uma de domingo
Começo a perceber minha visão ficando meio embaçada e minhas
bochechas (bem gordinhas,por sinal),molhadas.E eu juro,não foi nada que
você fez ,não foi nada ruim e nem proposital.Você só teve que falar um
"oi" bem sem graça no domingo de noite,bem na hora em que eu tava
escutando aquela música.Aquela que eu já choro só de saber que é a
próxima na playlist.
E,assim,sem querer te incomodar,mas você
podia voltar pra minha vida né?Podia me ligar no meio da semana ,durante
o dia,e me mandar olhar pra trás.Você ia ta ali com o maior
sorrissão,aquele que eu sei que você sempre dá quando me cumprimenta,e
me faria essa surpresa.
Tá bom,tudo bem,isso é provavelmente a
cena mais de filme do mundo,e eu também sei que não vai
acontecer,porque esse ano ta foda até de respirar; o colégio é uma
merda,e a gente tem aula o dia inteiro.
Mas,então,já que ta
ficando dificil esquecer,e não vai resolver "esse papo de agora não dá",que tal você só parar de me incomodar no domingo de noite?E também
quando estou prestes a dormir.E em todas minhas horas de tédio,quando eu
te escuto falando sobre as mesmas coisas chatas,mas não interrompo
porque sei que você é assim.Você fica feliz quando aparece alguém tão
orgulhoso quanto você,e aí pode fazer seu monólogo entre minhas risadas e
"nossa,é mesmo?Que legal!".
E sabe o que mais?Não é nada legal ,ouviu?
Pega suas musicas,esses livros,o futebol,suas outras paixões platônicas,e enfia tudo na cabeça de outra pessoa.
Vai escrever um blog que você ganha mais.
À meia-noite
*
Entrei pela porta com o coração na boca e me sentei na cadeira que reclinava.O maquiador já estava retocando minha sombra e o batom,enquanto a cerimonial ajudava seu assistente à transformar meu cabelo em uma confusão de grampos e tiaras brilhantes.Meu segundo vestido era ainda mais lindo e fabuloso do que o primeiro,cheio de flores e pequenos diamantes . Meus pais realmente haviam gastado até o último centavo nessa coisa toda.
Eu nunca pensaria que uma festa de 15 anos daria tanto trabalho,na verdade.Não lembro direito quando eu decidi que faria,ou se foi minha mãe que me obrigara a ter uma festa.Porque o que eu queria mesmo era uma viagem para a maravilhosa New York e,quem sabe,Los Angeles.Talvez ir pra Disney também.Mas não,eu tinha que ter decido pela festa.E,pensando bem,nada do que eu estava sentindo ali,sentada com o rosto para cima e com mil mãos trabalhando em mim,se igualaria à uma viagem.
Então,muitos dias tentando fechar o buffet,os vestidos,o salão e os convites depois,pisei no meu aniversário de 15 anos com o coração na mão.No começo ,tudo o que vinha na minha cabeça era:
"Será que meu vestido vai rasgar?" "Será que todo mundo vai me achar bonita e amar a festa?" "E a decoração?E se alguma coisa sair do lugar?" "Meu Deus,e se eu estiver esquecido de convidar alguém?" "Mas essa minha tia não tinha ido morar em outro país?O que ela ta fazendo aqui?"
E,pra falar a verdade,tinha passado rápido até.Toda a recepção ,os abraços,as fotos.Tinha dado tudo certo.
Agora que era a parte mais importante da noite.A parte em que eu vinha sonhando desde o dia em que experimentei meu vestido da valsa pela primeira vez,e me vi no centro da pista com todos aqueles que iriam valsar comigo.
Fechei os olhos e escutei toda a conversa e a barulheira lá fora,mas só uma música vinha na minha cabeça.E eu não podia dar nem um passo em falso porque, pelo tamanho do meu salto,eu escorregaria na primeira vacilada.E os fotógrafos ,que estavam por todo o lado,iriam registrar aquele momento vergonhoso.E todos os convidados ali me veriam e ririam de mim.
Então meu coração começou a disparar de novo,e aquelas pessoas ali me arrumando diziam que já estava na hora.Mas já?Não tinham se passado nem dez minutos direito,e eu já teria que ir.
Me levantei com a ajuda da cerimonial que ria para mim de modo carinhoso.Ela com certeza entendia como eu me sentia ,afinal,ela ia à festas como essa todo santo final de semana.Ainda bem que ela estava ali para me ajudar,ou eu teria caído antes de chegar a porta.
As luzes se apagaram ,e só os flashes das câmeras junto às luzinhas da pista de dança ficaram acessos.Iluminando meu caminho para a valsa.
Respirei tão fundo quanto eu podia,e dei um passo à frente para pegar a mão do meu pai,o primeiro dançarino de toda aquela tradição estranha dos 15 . Estranha,desesperadora e esplendorosa.
Dei um passo para a nova vida que estava começando para mim.
Feliz e com um sorriso no rosto,começamos a dançar suave e magicamente.E então só pude pensar em uma coisa:
"Finalmente chegou a hora de crescer."
*
